Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012

DIÁLOGO SOBRE A DOR


Levantar-se pela manhã, arrastar-se cama afora, seguir no dia até deitar-se de novo, absolutamente mergulhado em um círculo terrível de escuridão. Permito-me assim descrever a dor, interior, entranhada, sufocada. Para ela não há preparo prévio. Ninguém está, nunca, pronto para sentir dor. 

São pensamentos que atormentam, aqueles carregados ao máximo com o supremo poder da tristeza. Não há remédio para a dor, enquanto não houver também para a causa desse padecer. É com ela, por ela, e nela mesma que se encerra a dimensão do mal que a causa, e que torna a vida pegajosa, pesada, opressiva. E do mal que dela se deriva. 

Diz-se que uma riqueza interior profunda e inteligência intensificada proporcionam a condição imediata para uma sensibilidade elevada. Possuí-las faz com que se sinta mais a intensidade de suas dores. São características que não se desprendem daquele pensamento, justamente o que aprofunda o ciclo da dor, dos fenômenos do mundo interior e exterior, com a força e o impulso próprios para combinações sempre variadas de dificuldades, sofrimentos, acrescentados dos momentos de cansaço. Tudo totalmente além do alcance da razão, à mercê da passionalidade. Seria, talvez, o preço a pagar pela própria capacidade? Tolos e fúteis não sentem dor...

Escolher um mal, resignar-se a ele entregando-se ao sofrimento, é arma contra a dor. Mergulhar, afogando-se no profundo sentimento. Em silêncio, que dor assim é nele submergida, indefectivelmente, tentando digerir o mal. Até que se possa esgotá-lo. Choro, desespero, renúncia, sacrifício, abandono, desinteresse, são recursos para suportar e ao mesmo tempo, efeitos dessa batalha contra a atroz sensação de imortalidade da dor. E não vale dizer a quem a sente que um dia, acaba. Não é humanamente possível acreditar que haja fim, enquanto a dor se faz presente.

Não nos damos a vida, ela nos é dada. O resultado da vida é o que fazemos dela. Não há dor que justifique a fuga. Porém, inegável é a vontade. A grande questão consiste em conseguirmos controle absoluto sobre essa imensa vontade de fugir, de qualquer forma mais rápida quanto possível, da dor. E quem sabe, fazermos arte dessas nossas existências. 

Sim. É uma tentativa de autoconvencimento. De autopreservação.

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4 comentários:

marciagrega disse...

Creio que quanto mais fugirmos da dor mais ela nos perseguirá.Não se resolve um problema fugindo dele mas sim, enfrentando-o!
Eu também não gosto da dor mas se tiver que vier que venha. Isto também vai passar...

Beijão

Ajuricaba disse...

Belo...Belíssimo.

marcia1907 disse...

"chorei, chorei até ficar com dó de mim"....
Eu concordo com o poeta, às vezes chorar tudo que tem direito ajuda à beça. E aí, nana caymi canta dolores duran + uisquinho
ou
filmes tipo noites de tormentas + uisquinho
são tiro e queda.

Will disse...

"Não nos damos a vida, ela nos é dada."

Sábia constatação.

Ótimo final de semana para você!