Nesta semana meu artigo tem sabor de gratidão e mais principalmente de “reflexão triste”. Acabei de lançar pelo site da AMAZON o meu primeiro livro: MENINOS SONHAM HOMENS e a gratidão é pela generosidade da @ReginaBrasilia, que tão gentilmente cedeu espaço no seu blog Veneno Veludo, para a série LATINOAMERICANIDAD e que acabou constituindo-se na “ideia semente” do livro. Já a reflexão deriva da constatação de que precisamos cuidar da “formação infantil” das nossas crianças para que cresçam felizes, fruto de uma infância plena, para que venham a constituir-se em “brasileiros conscientes” da sua responsabilidade e acima de tudo, da sua importância na formação de uma Nação, que engatinha democraticamente, mas que será na qual viverão. Esta poderemos prepará-la, mas não construí-la customizada para eles, pois não somos amos e senhores de seus sonhos e aspirações.
Fiz recentemente uma viagem pelo interior de São Paulo e constatei uma realidade assustadora ao percorrer o RODOANEL, desde a saída da Rodovia Castelo Branco até a Via Anchieta e depois na subida de Santos, desde a Imigrantes até a Airton Sena. Um processo de favelização assustador toma a Periferia da Capital e isso me fez voltar aos tempos de infância e juventude, morador que fui da periferia paulistana de então. Minha infância passei-a quase toda na Vila Maria, (1951 a 1956) e minha juventude parte dela em Artur Alvim, (1961 a 1963) e depois Vila Maria até casar-me, contudo em cenários muito distintos das atuais periferias. Tanto na Vila Maria, quanto em Artur Alvim o que se via então eram casas simples divididas em quarteirões regulares demarcados por ruas de barro e sem qualquer infraestrutura sanitária, mas com instalações de eletricidade regulares. Eram, ambas periferias, pobres, mas não miseravelmente favelizadas.
Aquela Vila Maria tinha uma “boca de fumo”, ou melhor, “um ponto de encontro de maconheiros” próximo à Igreja da Candelária, mas a droga então era de “uso privativo de malandros” e não a chaga social de hoje exposta pelo “tráfico empresarial de drogas” e nesse ambiente a infância não sofria os riscos modernos e tampouco representava um “mercado potencial” a desenvolver. (Na verdade, Vila Maria foi se tornar importante “boca de fumo” na década de 1970). Já em Artur Alvim a “barra pesada” era o famoso Baile do Risca Faca, uma gafieira imortalizada por Germano Mathias na década de 1960. Aos meninos nada era restrito, proibido ou perigoso, fosse a frequência aos campos de futebol às margens da Dutra na Vila Maria ou na Cidade AE Carvalho para os meninos de Artur Alvim. Mesmo as lagoas ermas da várzea do Tietê não tinham outro risco, que não a morte por afogamento dos “moleques mais atrevidos”. Essa liberdade era vista todas as manhãs quando crianças desde os 6 anos de idade caminhavam a pé pelas ruas dos bairros rumo à sua escola desacompanhadas de seus pais ou outros adultos. Os folguedos de fins de tarde e começo da noite aconteciam também nas ruas com toda a segurança e nela encontravam-se meninos e meninas de até 14 anos, quando aconteciam os “primeiros beijos”.
Em minha juventude, (1961 a 1963), trabalhei no Banco da Lavoura de Minas Gerais em uma agência que ficava na esquina da Rua Américo Brasiliense com a Avenida do Estado, em frente ao Mercado Municipal. Era de praxe todo final de mês fazer o “balancete contábil”, (nessa época o máximo em tecnologia eram as calculadora DIVISUMA da Olivetti) e para isso éramos convocados para uma “esticada”, após o expediente, que se estendia normalmente até às 02:00 ou 03:00 hs da madrugada seguinte. O único meio de transporte disponível àquela hora era o “bonde da Vila Maria”, (o saudoso 34) e para tomá-lo era preciso atravessar o Parque Dom Pedro. Alguém se arriscaria a fazer isso hoje em dia?
Nem é necessário nos dias de hoje tentar imaginar o que se passa nas periferias paulistanas e nas do Rio, BH e Porto Alegre, atualmente empurradas para muitos quilômetros além e as de Recife, Salvador e Fortaleza, ou de qualquer uma das capitais e grandes cidades brasileiras, que recebem “refugiados do Programa de UPP” do Rio. Os programas televisivos sensacionalistas e as Delegacias de Polícia têm a sua tragédia quotidiana e dramaticamente registrada. Mas o pior é o que vem sendo explorada pelo próprio Governo, jogando às costas da “sociedade reacionária”, a responsabilidade pela “quase convulsão social”, a que está submetido o Brasil. Fosse a situação atual provocada por um regime autoritário nacional e ou estrangeiro como acontece em muitos países do mundo, certamente estaríamos preparando uma “geração revolucionária”, que redimiria a Nação no futuro. Mas quando são as Autoridades Constituídas, que demonstram sua incompetência e inapetência para enfrentar tão graves problemas, só nos resta “chorar pela infância perdida”. Lembrei-me aqui de Casimiro de Abreu, que declamava no Primário:
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida,
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é lago sereno,
O céu - um manto azulado,
O mundo - um sonho dourado,
A vida - um hino d'amor!
Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia,
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias de minha infância
Oh! meu céu de primavera!
Que doce à vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberto o peito,
- Pés descalços, braços nus -.
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
- Que amor, que sonhos, que flores -
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
MEUS OITO ANOS - Casimiro de Abreu, 1859.
Casimiro, tive o privilégio de te cantar... os “brasileirinhos periféricos de hoje” não.
Antônio Figueiredo, o @ToniFigo1945, é economista e agora, além do tradutor da conjuntura econômica da América Latina - e do mundo - para o blog, é autor de livro.