Terça-feira, 21 de Maio de 2013

CAI A NOITE


Deve dar breve cuidado, 
Motivar grande atenção, 
A um Deus a criação, 
Depois de te haver criado. 
Deve de ser refinado 
O engenho que ele mostrar 
Desde o ponto em que criar; 
Cuide nisto a omnipotência, 
Porque, ao ver a sua essência, 
A Natureza pasmou. 

Ao mesmo Céu não é dado 
(Bem que tanto poder goza) 
Criar coisa tão formosa 
Depois de te haver criado. 
Naquele instante dourado, 
Em que teus dotes formou, 
Apenas os completou, 
Arengando-lhe o Destino, 
Em um êxtase divino 
A Natureza pasmou. 

O teu rosto é adornado 
Dos prodígios da beleza; 
Foi um deus a Natureza 
Depois de te haver criado. 
Pôs em teu rosto adoçado 
O que nunca o Céu formou; 
Ela a Jove envergonhou 
Nesse deleitoso espanto, 
E de ter subido a tanto 
A Natureza pasmou. 

Manuel Maria Barbosa du Bocage
(Ilustra o post tela de Frederick Richard Pickersgil, Orsino and Viola)

O BOATO FALSO, A POLÍCIA FEDERAL, A LEI E A INJUSTIÇA

"Onde houver honestidade, leva corrupção; onde houver justiça, leva flagelação... 
Onde houver democracia, leva totalitarismo; onde houver lei, leva o crime." 
BSchopenhauer in Litania das Trevas

Photo: O Globo

De desonestidade intelectual a rebaixamento moral esse mundo é construído, e o país demencial que se tornou o Brasil pós-Lula presidente, muito mais e mais veloz, é, por ambos, destruído. É aqui nessas terras morenas que há palco para toda a sorte de impunidades e também de imbecilidades ditas em sua defesa.

Pela defesa do mensalão e dos mensaleiros, o PT decretou que a Justiça não tem o menor valor no Brasil. Pela defesa da odiosa PEC 37, entidades corporativas como a OAB (que é a única certa dentre todas as que defendem a PEC da Impunidade, uma vez que sua função exclusiva é ser um sindicatão dos advogados, mesmo que nem todos sejam favoráveis àquela excrescência), associações de delegados de Polícia Federal e Civil, ganham, felizes, e divulgam, contentes, o apoio do chefe de uma Sofisticada Organização Criminosa, o bandido condenado à prisão pelo mensalão, José Dirceu. Pela defesa do governo, o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo sequer treme o canto da boca ao determinar que a Polícia Federal - que lhe é subalterna - investigue o boato que sacudiu esses nossos dias tão tristonhos: que o programa Bolsa Família iria acabar.

Segundo o artigo 41 da Lei das Contravenções Penais, "provocar alarma, anunciando desastre ou perigo inexistente, ou praticar qualquer ato capaz de produzir pânico ou tumulto" é, obviamente, contravenção. E contravenção não é crime da esfera federal, mas sim, estadual. Não cabe à Polícia Federal investigar. Assim como não cabe ao Ministério Público Federal denunciar nem à Justiça Federal julgar. Portanto, a abertura de inquérito por parte da PF, por exigência do seu chefe político, o ministro Cardozo, é inútil, imoral e ilegal. Cardozo, como membro da alta corte do PT, partido do governo, que por sua vez tem maiores interesses e já se apressou em CULPAR E CONDENAR a "oposição" pelo "crime" de boato, torna oficialmente a Polícia Federal como a polícia política a serviço do interesse particular do PT, que mira a re-eleição de Dilma em 2014. 

Como falo em imbecilidades ditas em defesa das impunidades e dos absurdos que grassam no Brasil, um dos argumentos mais utilizados pelos delegados de polícia defensores da PEC 37 é justamente o de que a polícia deva ser valorizada "conforme a Lei" e distorce o sentido pró-impunidade desta PEC como sendo a "PEC da Legalidade". Ora, o uso político subordinado a interesse partidário de uma investigação da PF é legalidade? E se isso não for desvalorizar, desmoralizar a própria Polícia Federal, falta o quê? Vesti-los de colete vermelho e boné com estrela na testa? Por que não vejo delegados da PF arvorando-se a favor da legalidade, contra a abertura desse inquérito para "investigar boato sobre Bolsa Família", em nome da honra da função constitucional de seus policiais? Talvez por ser a PF hierarquicamente subordinada ao poder do chefe político, e por isso, jamais isenta e independente deste? A minha resposta, em "três letrinhas, todas bonitinhas, fáceis de dizer", todos já sabem. 

Neste caso do boato sobre o Bolsa Família, nem a imprensa - falo, obviamente, da minoria independente - insistiu em ressaltar o absurdo da acusação que a ministra Maria do Rosário desfiou, afirmando cheia de razão que o boato fora criado pela "oposição". A representante do governo Dilma disse que era só uma opinião (singela, a fofa) e de pronto todos lhe passaram a mão na cabeça. Tampouco li, até o momento em que redijo essas linhas, ninguém da imprensa questionar a PF sobre a tal abertura do tal inquérito que não lhe cabe, não é de sua alçada e não terá utilidade outra além de servir como panfletagem pró-governo. Faltam aos repórteres, redatores e colunistas conhecimento dos fatos, passa preguiça e acomodação em apenas repetir release da EBC e da Casa Civil, ou falta coragem em publicar o correto, conforme deva ser o compromisso com a verdade dos fatos? Reflexo da doutrina que prega a igualdade ao custo da liberdade?

Lei é palavra importante, mas vilipendiada. Massacrada. Desprezada na teoria e muito mais na prática. E nem de longe Lei significa Justiça. Somos nós iguais perante a lei, neste  Brasil, e nestes anos de Governo onde mandam Lula, Dilma, José Dirceu, Cardozo, Palocci, Maria do Rosário, Thomaz Bastos, especialmente? Há algum chefe de partido, há algum cabeça de grupo, algum amigo íntimo da situação que nos governa, algum parente ou amante, ou qualquer amigão chegado às tais autoridades, que não reúna em sua pessoa um feixe sem-fim de regalias, que não goze de prerrogativas especiais, que não tenha em torno de si uma guarda ou uma defesa incondicional?

Onde há lei, leva-se o crime, diz a sentença no início do post. Este é o Brasil que vai para a frente. Comecei com BSchopenhauer e faço uso das suas palavras para encerrar este, sobre o que é, de fato, "boato falso", conforme cunhou a presidente que nos desgoverna, mas não há polícia, congressista ou jornalista que a questione livremente, conforme os cidadãos, alguns, o fazem:
"O crescimento do PIBinho durante o desgoverno Dilma/PT é boato falso.
O controle da inflação pelo desgoverno Dilma/PT/Mantega é boato falso.
O brasileiro "campeão do mundo em felicidade" é boato falso. 
Sensação de "bem-estar" no Brasil não é "fachada"; é boato falso propagado pelo desgoverno.
O apreço de Lula/PT pelos trabalhadores é boato falso.
O moralismo de Lula/PT antes de chegarem ao governo era boato falso. 
O heroísmo de Dilma e companheiros contra a Revolução de 1964 é boato falso. 
O apreço de Dilma/PT pela democracia é boato falso. 
A super-competência da gerentA é boato falso propagado por Dilma/Lula/PT. 
As 6000 creches que seriam construídas pelo desgoverno Dilma/PT é boato falso. 
O Programa Minha Casa, Minha Vida é boato falso propagado pelo desgoverno Dilma/PT."
E o BSchopen nem precisou chegar ao SUS e ao boato falso de "saúde de primeiro mundo". Muito há o que investigar, dona Polícia Federal, a fim de se observar a Lei objetivando fazer a Justiça. Já pensou quanto trabalho se de fato lhe coubesse investigar boato falso? 

Segunda-feira, 20 de Maio de 2013

CAI A NOITE



Clarão da lua na noite 
Sombras do renascer 
- no dia 
Vento breve de outono;
Sou a tua janela 
- Aberta, destemida 
Porque és tu desta vista 
O único dono.

Tu me levas pela mão 
Em todas as horas
Teia de calor, equilíbrio de sons 
- Neste tempo bom; 
Aqui nascem as tuas palavras 
As minhas harmonias 
Todas as alegrias.

PRESIDENCIALISMO DE MAUS RESULTADOS



Nesta semana assistimos a mais um espetáculo deplorável do mau exercício da Política no Brasil, que foi a aprovação da MP DOS PORTOS. O projeto não é ruim. Ruim é a maneira do que sem tem que fazer para aprovar qualquer assunto de importância no Congresso Brasileiro. Outro passou despercebido que foi a recusa da Implantação do Voto Distrital para as Eleições Municipais de 2016 pela CCJ – SENADO para as cidades com mais de 200 mil habitantes, que seria um “principio da Reforma Política” necessária. O que os 2 fatos tem em comum? TUDO.

A propósito de “proteção dos direitos das minorias” a estrutura partidária atual levou a tal segmentação dessa representação, que na verdade “em nada representa” minorias, mas tão somente uma “casa de apostas” de políticos incompetentes e sem expressão, que se organizam exclusivamente com o objetivo de “levar vantagem em tudo, certo?”. Já nos grandes partidos, leia-se PMDB, uma minoria conhecidamente “fisiológica” sobrepõe sua “visão pessoal” à “visão e orientação partidária”. Seria uma agulha no palheiro? Ou é o próprio celeiro quem esconde a agulha?

Mais 4 anos se passaram e as Reformas Estruturais necessárias foram novamente postergadas e chegamos a outra Eleição Presidencial em que se discutirá a “paternidade do passado”, os “sucessos do passado”, e as “falcatruas do passado”, enquanto o futuro pouco importa. E a razão para isso é mais que evidente, porque os Políticos se preocupariam em mudar algo que os beneficia integralmente?

Governar em um ambiente político como esse é inviável e isso de certa maneira só beneficia aqueles que não têm propostas para o futuro. Ou seja, TODOS. Não vejo em Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos carisma e liderança para alavancar essas ideias e ideais e não vejo em PT, PSDB e PSB fôlego, quadros e estrutura para suportar essas mudanças.

É muito desanimador que um país jovem e promissor já esteja escravizado pelo que existe de mais velho e as classes mais baixas, que festejam as “bolsas”, não se dão conta de que a dignidade vem pelo trabalho. Muitos dizem que a “essas classes” interessa exatamente o que recebem. Se isso é verdade, a situação é muito pior do que se pensa. Macunaíma representaria com fidelidade uma Nação.

Antônio Figueiredo, o @ToniFigo1945, é economista e agora, além do tradutor da conjuntura econômica da América Latina - e do mundo - para o blog, é autor de livro.

(Photo: Jornal da Comunidade)

Segunda-feira, 13 de Maio de 2013

CAI A NOITE


O homem que eu amo
veio de tanto eu pedir
mas quando parei de esperá-lo
veio quando eu ao depená-lo
do meu sonho receio,
permiti que em vez de início ou fim
ele no meio de mim
fosse só o meio.
Não meio no sentido tático
de jeito ou de modo.
Meio no sentido de durante
de enquanto
de presente.
Quando abandonei o título futuro
definitivo da eternidade
o rótulo azarento de garantia
no departamento de intimidade,
quando abandonei o desejo
de ressarcir aqui
o que perdi na antigüidade,
meu homem chegou cheio de saudade
ocupando inteiro
seu lugar de meio
sua inteira metade.

Elisa Lucinda

MENINOS SONHAM HOMENS



Nesta semana meu artigo tem sabor de gratidão e mais principalmente de “reflexão triste”. Acabei de lançar pelo site da AMAZON o meu primeiro livro: MENINOS SONHAM HOMENS e a gratidão é pela generosidade da @ReginaBrasilia, que tão gentilmente cedeu espaço no seu blog Veneno Veludo,  para a série LATINOAMERICANIDAD e que acabou constituindo-se na “ideia semente” do livro. Já a reflexão deriva da constatação de que precisamos cuidar da “formação infantil” das nossas crianças para que cresçam felizes, fruto de uma infância plena, para que venham a constituir-se em “brasileiros conscientes” da sua responsabilidade e acima de tudo, da sua importância na formação de uma Nação, que engatinha democraticamente, mas que será na qual viverão. Esta poderemos prepará-la, mas não construí-la customizada para eles, pois não somos amos e senhores de seus sonhos e aspirações. 

Fiz recentemente uma viagem pelo interior de São Paulo e constatei uma realidade assustadora ao percorrer o RODOANEL, desde a saída da Rodovia Castelo Branco até a Via Anchieta e depois na subida de Santos, desde a Imigrantes até a Airton Sena. Um processo de favelização assustador toma a Periferia da Capital e isso me fez voltar aos tempos de infância e juventude, morador que fui da periferia paulistana de então. Minha infância passei-a quase toda na Vila Maria, (1951 a 1956) e minha juventude parte dela em Artur Alvim, (1961 a 1963) e depois Vila Maria até casar-me, contudo em cenários muito distintos das atuais periferias. Tanto na Vila Maria, quanto em Artur Alvim o que se via então eram casas simples divididas em quarteirões regulares demarcados por ruas de barro e sem qualquer infraestrutura sanitária, mas com instalações de eletricidade regulares. Eram, ambas periferias, pobres, mas não miseravelmente favelizadas.

Aquela Vila Maria tinha uma “boca de fumo”, ou melhor, “um ponto de encontro de maconheiros” próximo à Igreja da Candelária, mas a droga então era de “uso privativo de malandros” e não a chaga social de hoje exposta pelo “tráfico empresarial de drogas” e nesse ambiente a infância não sofria os riscos modernos e tampouco representava um “mercado potencial” a desenvolver. (Na verdade, Vila Maria foi se tornar importante “boca de fumo” na década de 1970). Já em Artur Alvim a “barra pesada” era o famoso Baile do Risca Faca, uma gafieira imortalizada por Germano Mathias na década de 1960. Aos meninos nada era restrito, proibido ou perigoso, fosse a frequência aos campos de futebol às margens da Dutra na Vila Maria ou na Cidade AE Carvalho para os meninos de Artur Alvim. Mesmo as lagoas ermas da várzea do Tietê não tinham outro risco, que não a morte por afogamento dos “moleques mais atrevidos”. Essa liberdade era vista todas as manhãs quando crianças desde os 6 anos de idade caminhavam a pé pelas ruas dos bairros rumo à sua escola desacompanhadas de seus pais ou outros adultos. Os folguedos de fins de tarde e começo da noite aconteciam também nas ruas com toda a segurança e nela encontravam-se meninos e meninas de até 14 anos, quando aconteciam os “primeiros beijos”.

Em minha juventude, (1961 a 1963), trabalhei no Banco da Lavoura de Minas Gerais em uma agência que ficava na esquina da Rua Américo Brasiliense com a Avenida do Estado, em frente ao Mercado Municipal. Era de praxe todo final de mês fazer o “balancete contábil”, (nessa época o máximo em tecnologia eram as calculadora DIVISUMA da Olivetti) e para isso éramos convocados para uma “esticada”, após o expediente, que se estendia normalmente até às 02:00 ou 03:00 hs da madrugada seguinte. O único meio de transporte disponível àquela hora era o “bonde da Vila Maria”, (o saudoso 34) e para tomá-lo era preciso atravessar o Parque Dom Pedro. Alguém se arriscaria a fazer isso hoje em dia?

Nem é necessário nos dias de hoje tentar imaginar o que se passa nas periferias paulistanas e nas do Rio, BH e Porto Alegre, atualmente empurradas para muitos quilômetros além e as de Recife, Salvador e Fortaleza, ou de qualquer uma das capitais e grandes cidades brasileiras, que recebem “refugiados do Programa de UPP” do Rio. Os programas televisivos sensacionalistas e as Delegacias de Polícia têm a sua tragédia quotidiana e dramaticamente registrada. Mas o pior é o que vem sendo explorada pelo próprio Governo, jogando às costas da “sociedade reacionária”, a responsabilidade pela “quase convulsão social”, a que está submetido o Brasil. Fosse a situação atual provocada por um regime autoritário nacional e ou estrangeiro como acontece em muitos países do mundo, certamente estaríamos preparando uma “geração revolucionária”, que redimiria a Nação no futuro. Mas quando são as Autoridades Constituídas, que demonstram sua incompetência e inapetência para enfrentar tão graves problemas, só nos resta “chorar pela infância perdida”. Lembrei-me aqui de Casimiro de Abreu, que declamava no Primário:

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida,
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é lago sereno,
O céu - um manto azulado,
O mundo - um sonho dourado,
A vida - um hino d'amor!

Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia,
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias de minha infância
Oh! meu céu de primavera!
Que doce à vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberto o peito,
- Pés descalços, braços nus -.
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
- Que amor, que sonhos, que flores -
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

MEUS OITO ANOS - Casimiro de Abreu, 1859.

Casimiro, tive o privilégio de te cantar... os “brasileirinhos periféricos de hoje” não.

Antônio Figueiredo, o @ToniFigo1945, é economista e agora, além do tradutor da conjuntura econômica da América Latina - e do mundo - para o blog, é autor de livro.

Domingo, 12 de Maio de 2013

MÃE - SER - PESSOA

Este texto foi publicado em 2011. Mas nada no país muda, apenas surgem novas tristezas para as pessoas, uma sobre a outra, sem que se assombre pelo descaso que é a causa delas. Não preciso reescrever um novo, apenas atualizar as tragédias. 
Porque as mães continuam a chorar o horror de perder os seus filhos.

"São três letrinhas, todas bonitinhas, fáceis de dizer", que juntinhas, carregam um mundo de significados. A palavra MÃE é beatificada. A imagem de "ser mãe" é santificada. Do tipo que ninguém pode ousar algo diferente, como se a maternidade (parida ou não, pois mãe é quem cria) tirasse da mulher, irremediavelmente, o direito de ser humana. 

Toda mãe é pessoa. Não pedra, não folha, não casca de árvore, não vento, nem luz. Pessoa. Ética ou não, bonita ou não, tranquila ou histérica, ponderada ou histriônica. Feliz ou triste, corajosa ou assustada até com o ar que respira. E toda pessoa é tudo isso, e mais, junto. 

Ensinou-me uma pessoa, e já faz algum tempo, que a perda de uma vida humana diminui-lhe a dignidade de ser um humano. Há mãe que perdeu a chance de viver a dignidade de ser humana. A mãe das tragédias chuvosas país afora, que perdeu seu filho para o barranco deslizando sob a chuva. A mãe de Santa Maria, que não viu seu filho retornar para casa porque a fumaça de um fogo irresponsável sufocou-lhe o ar dos pulmões, quando ela só queria que eles fossem cheios do sopro divino da vida. A mãe idosa que vê seu netinho morrer por falta de leito em UTI, e chora a vontade de ter ido em seu lugar, que, com tão poucos anos, talvez apenas alguns meses, sequer viveu e já se perdeu.

A mãe que fez o café para sua filha sair para o trabalho, mas não pode guardar seu prato de arroz, feijão, bife e salada, à noite, porque ela foi esfaqueada num assalto. A mãe de uma dentista que foi queimada viva por um filho menor de uma mãe que talvez nem saiba que o seu é um monstro, tutelado pelo estado que não se preocupa com mães e filhos. A mãe que iria visitar a família do filho no sábado, mas antes, viu o acidente de carro que o matou, na TV. A mãe destruída pelo Monstro de Realengo que escolheu uma escola para ensinar que a maldade tem o olho humano, a cara humana e lhe arranca o sorriso dos lábios para sempre. A mãe de Boston que, pelo terror de loucos alimentados por ódios talvez maternos - nem todas as mães são felizes - explodiram uma sua criança e lhe deixaram a outra sem uma perna, mas que pela vida desta e memória daquela, é uma mãe que precisa sobreviver.

Não faltam tragédias e lágrimas para contar da mãe que hoje, nesta data, chora por este filho que lhe foi tirado pela violência do dia, da vida, da circunstância, do destino, da imprudência, do descaso. São as lágrimas da pessoa que não é santa, não é pura, não é uma ilusão. É só mãe. É uma pessoa. 

Tears are words can't I say. Às pessoas que choram a ausência, meus respeitos.

É DOMINGO - O ASSOMBRO DA DIVINA MÃE


“A Virgem está pálida e contempla o menino. O que dizer daquela expressão de perplexidade que foi vista uma única vez num semblante humano? Porque o Cristo é o seu filho, a carne da sua carne, e o fruto do seu ventre. Ela o carregou por nove meses, vai lhe oferecer o seio e o seu leite se tornará o sangue de Deus. 
Em alguns momentos a tentação é tão forte que esquece que é o Filho de Deus. Ela o aperta em seus braços e sussurra: Meu filhinho! Mas, em outros momentos, imóvel pensa: Deus está ali. E é tomada por uma admiração religiosa por esse Deus mudo, por esse menino que, de uma certa forma, causa medo. 
Todas as mães, por um instante, ficam transtornadas diante daquele fragmento rebelde da sua própria carne que é um (seu) filho. E se sentem exiladas diante dessa nova vida feita da (sua) própria vida, mas que contém outros pensamentos. 
Mas nenhuma criança foi arrancada de sua mãe de um modo tão cruel e rápido porque é Deus e supera em tudo o que ela poderia imaginar. E é uma dura provação para uma mãe ter vergonha de si mesma e da sua condição humana diante de seu filho. 
Mas creio que deve ter havido outros momentos, rápidos e fugazes, nos quais ela sente que o Cristo é o seu filho, a sua criança, e que é Deus. Ela o contempla e pensa: este Deus é o meu filho. Esta carne é a minha carne, é feito de mim, tem os meus olhos! E a forma da sua boca é semelhante à minha boca. Ele se parece comigo. É Deus e se parece comigo. 
Nenhuma mulher teve a sorte de ter o seu Deus só para si. Um Deus menino que se pode abraçar e cobrir de beijos. Um Deus quente, que sorri, que respira. Um Deus que está vivo e se pode tocar! 
É nesses momentos que eu pintaria Maria se eu fosse pintor. 
E José? José, eu não o pintaria. Mostraria apenas uma sombra no fundo do celeiro e dois olhos brilhantes. Pois não sei o que dizer de José, e José não sabe o que dizer de si mesmo. Adora e está feliz por adorar e se sente um pouco em exílio. Creio que sofra sem confessar. Sofre porque vê o quanto a mulher que ama se parece com Deus, o quanto está perto de Deus. Pois Deus estourou como uma bomba na intimidade dessa família. José e Maria estão separados para sempre por esse incêndio de luz. E toda a vida de José, imagino, será para aprender a aceitar.” 
Jean-Paul Sartre in Os filhos do trovão 
(A dona deste blog não é admiradora de Sartre, o que não a impede de gostar, particularmente, deste texto, que para ela, não parece Sartre.)
Ilustração: Madonna - The Sistine, by Raphael 

Terça-feira, 7 de Maio de 2013

CAI A NOITE



Grande 
Como uma criança quando tens razão 
Tu és como um menino
Quando fazes o céu derramar sua cor 
E a terra dissolver o mau tempo 
Maior que o teu riso quando me faz 
Gente grande.

Tudo que há no mundo
Há dentro de cada um
E em nós dois
O correr do rio
A largueza das nuvens - no céu
O vento, a folha, a palavra, os olhares
- e o nosso sentimento
Tudo está em movimento.

Saltas o tempo
Tu te moves como se move
- uma canção
Que ressoa por toda a parte
- Grande, em eterno movimento -
Ultrapassas as fronteiras do pensamento
Revelado às minhas veias
Tu habitas - o infinito - em mim.

O SUS E A CUBANIZAÇÃO DO BRASIL - NA PRÁTICA


A foto acima é de uma vacinação promovida por médicos cubanos no Haiti. Esqueço, por ora, o "uniforme" profissional utilizado na ação. A nota no site do Conselho Federal de Medicina registrando críticas severas a importação de médicos cubanos sem revalidação do diploma, foi o start para a discussão do tema.

O Procurador Regional dos Direitos do Cidadão do MPF/GO, Ailton Benedito, atento, fez as considerações abaixo, sobre a intenção do governo em promover essa "abertura" que trará, em minha opinião, severas e graves consequências CONTRA a população. A saber, a mais carente das carentes, que conta apenas com o SUS ao necessitar de atendimento à saúde. Aspas para o Procurador da República:

- Qual seria o custo per capta (passagem, transporte, moradia, salário) desses 6 mil médicos cubanos?
- Junto com os 6 mil médicos cubanos viriam 6 mil tradutores? Ou a população assistida domina o portunhol? 
- Esses médicos cubanos seriam federais, estaduais ou municipais? 

Num tipo de brainstorm com o procurador Ailton, pela manhã, larguei algumas questões retóricas na conversa: como a execução dos serviços de atenção básica são municipalizados, se o governo federal obrigará as prefeituras a instalarem os (supostos) médicos cubanos em seus hospitais e postos de saúde. Também não me parece correto que, sobre solo da nação LIVRE brasileira, 6000 trabalhadores contratados sob responsabilidade do governo, não tenham seus salários pagos diretamente a eles, mas ao governo de Cuba, que repassa-lhes um valor irrisório. Se isso não é pagar o contrato ao feitor, não sei o que seja. 

A questão pertinente à linguagem vai além da comunicação médico-paciente. Espanhol não é de tão fácil entendimento como parece. Como fica a comunicação com o corpo de enfermagem? Trata-se de alocar os tais "profissionais" nas regiões mais carentes do país. A dificuldade de entendimento de uma auxiliar de enfermagem ao preparar um procedimento prescrito a um paciente, em minha opinião, poderá causar danos irreversíveis, dentre eles, mortes. E ainda há o receituário. O Brasil da internet tem noção de como são também carentes os balconistas de farmácia do Brasil profundo? Que mal frequentaram escola e mal lêem português?

Isso não vai dar certo. Sob nenhum aspecto. E sequer cheguei, ainda, ao risco da nossa própria escravidão ideológica e o que o mundo livre, democrático e publicamente contra as ditaduras do mundo, acharão de participar de uma Copa do Mundo ou Olimpíadas podendo as suas delegações serem vítimas de espiões - ou coisa pior - pagos pelo governo brasileiro. Desses dois aspectos, há muito o que dizer em outros posts. E não, não se trata de inventar teoria da conspiração. Alguns de nós sabem de coisas e de pessoas (de outros países) que, por sua vez, sabem das coisas que vão além de delírios de alguma imaginação hiperativa. 

Sugestão do blog: na oportunidade da visita da blogueira Yoani Sanchez ao Brasil, o procurador Ailton Benedito publicou em seu blog, Bendito Argumento, o artigo chamado A Cubanização do Brasil. Leitura recomendada.

Domingo, 5 de Maio de 2013

CAI A NOITE

É dentro que se ouve, ressoa para o mundo
O que do mundo de bom há no Homem
Dentro de um segundo se faz a constância
Com que vivo, quando viva a intacta substância
Da tua própria história;
E o que se vê até os confins
É apenas um momento em que tudo pousa
E escapa, insolente, para quem em teus olhos
Para, repousa, e recebe o teu abrigo.

No teu olhar de um plátano iluminado
A oferecer-me a paz do teu sorriso aberto
Minhas palavras são a minha música em sangue
Vivo, da carne cortada pelas pedras que atiram
E sequer nos alcançam!
Meu canto - ou apenas um soneto
Esperam o sono, inquieto, para alimentar-me
Da tua Retidão, entranhada nas paredes da terra
Porque sem ti não reconheceria o levantar
Do dia no horizonte, certeza de que tudo
Que nunca buscas, está a te encontrar.

Por tuas estradas aprendi o caminho
Da imperfeição e incoincidências do dia-a-dia
Onde tudo vale a pena, paga a graça de despertar
Onde tudo se transforma de um leve respirar
Num simples poema.
Por ti que vivo, renasço, e amo o ouro que desce
Do teu olhar, dos pelos do teu braço,
Na ternura que cabe em teu abraço

Tudo o que tens, presenteia-me com o que és
Abres as vertentes onde a água de tua Fonte
De verdades límpidas recaem sobre mim
E o teu paladar nas minhas veias - quentes
Antes de adormecer-me nesta noite sussurrada,
Faz-me cantar minha música, 

Simples verso ou somente um poema
Encantada, já de saudades dessorada!

O NÃO PENSAR, A INÉRCIA E O RISCO À DEMOCRACIA


Pensar pode até doer, mas eu realmente não acredito nisso, porque dói muito mais a consequência do não pensar. Precisamos perder o medo de pensar, de questionar, elucubrar, de elaborar. É preciso conseguir respostas, e, com elas, chegar à ação.

A democracia (em risco) no Brasil já tem idade para nos levar a saber que é preciso fazer. Ou nós recuperamos a decência ou não vamos fazer nada de bom para o futuro. Temos preguiça, às vezes. Falta energia para trocar ideias, debater, ler, nos informar, aprender, raciocinar e questionar sobre o ocorre, em amplo espectro, no desgoverno da República Dilmista. A malemolência que demonstramos em não questionar nos custará caro. Será impagável, na verdade.

Já estamos no reino da hipocrisia e não vejo outra face para os últimos meses do (atual) governo de Dilma Rousseff. Com a antecipação de sua campanha pela reeleição, será daí para pior.  Lula, o já Expirado mas sempre bufão, segue com sua verborragia tanto quanto é possível, logicamente cumprindo o papel de desmoralizar a democracia, assim como tantos de seus companheiros de armas - e Oxalá, um dia, de cela - como os criminosos condenados José Dirceu e Genoino, por exemplo. Esses são os fortalecedores da esquerda e do atual governo, e, atentem, isso não é da democracia. Ao menos não para mim, porque eu não acredito que Lula ou qualquer outro dos seus, bandidos inclusos, defenda alguma ideologia. Na prática  os seus atos não se baseiam em nenhuma teoria da ciência política esquerdóide. Matariam Marx, já não estivesse mortíssimo, de desgosto. Não plantam nada. O que o petismo quer mesmo é tão somente implantar seu regime de colheita: aquele que continuará a lhe dar poder e todos os demais meios para se locupletar dele, fazendo "o diabo" para chegar ao segundo mandato da Dilma, o quarto, consecutivo, do partido.

A democracia não é para permitir tudo. Democracia não é vale-tudo, pois até vale-tudo, a disputa baseada em artes marciais que agora tem outros nomes, tem regras. Já a "democracia" governita-petista é um amontoado de vícios banalizados, um grande salto de incompetências tantas, um espetáculo dramático de crimes, corrupção, falta de vergonha na cara e muita, muita perseguição à opinião livre.

Quem somos os que devemos nos preocupar com isso? Qualquer um que, ao pensar, avaliar e perceber o que acontece, não se conforma. Democracia é para minoria, porque a maioria espúria jamais lidera mudança nenhuma. Essa maioria que  hoje comanda o Brasil tende a produzir crises sucessivas até que já não haja mais condição de reação da minoria.  Mudança, quem vai conseguir, é a suposta minoria, que não tem representatividade, na prática. Quem deveria representá-la, em nome da "oposição" ao desgoverno, não sabe o que fazer, e nem quer fazer.

A democracia corre risco quando "o poder" não encontra, diante de si, nenhum obstáculo que contenha sua marcha, de forma que ele possa moderar-se, a si mesmo. É absurdo o pensamento esquerdistamente correto em vigor, que delega ao estado o poder de fazer com que o indivíduo passe da condição de ser pensante e razoável, à condição de animal bruto, autômato, teleguiado. Uma coletividade de comedores de capim ou de escravos faz o estado feliz justamente por não ser fundamentada em vontade livre. Coletividade alguma, isso é fato, expressa liberdade. Por si, pressupõe a supressão do pensamento individual, em nome do "interesse social".  

Tanto falamos sobre liberdade fora do conceito marqueteiro, ilusório e liberticida da igualdade e fraternidade, porque é o valor que mais nos falta, a nós e à nossa "República".  À nossa imatura democracia, na realidade, não falta poder. Faltam lei e liberdade. Leis temos demais, mas sem força para serem cumpridas, tornam-se inúteis. Lei e poder, sem liberdade, é despotismo. Liberdade e poder, sem lei, é anarquia. Poder sem lei nem liberdade é tirania. E atentem para isso. Parece que já vivemos uma barbárie assim: poder sem lei nem liberdade é tirania.

Pensar é ato individual mas agir não precisa ser. Ainda temos algumas organizações civis. Talvez deveríamos contar com aquelas que detém a confiança da população, como as igrejas, parcela do Ministério Público não ideológico, talvez algum apoio vindo do Judiciário, através basicamente do cumprimento daquilo que se espera dele, fazer cumprir as leis. E há o braço da imprensa mais livre, que resiste, corajosa, em não se dobrar ao governo. Mas devemos contar, antes, com nossa vontade de, quem sabe, encontrar caminhos. É a decisão pessoal, individual, de cada um de nós em expressar o quanto discorda do que acontece no país há 10 anos - e tende a se prolongar até 2018 - capaz de, consequentemente, criar um pensamento coeso e ações idem.

República só tem lugar onde há poder com lei e liberdade. Liberdade para querer pensar, e a partir daí, expressar que é preciso quebrar esse ciclo. 2014 é logo ali.

É DOMINGO: DEMOCRACIA E O CICLO DA COVARDIA



Não estamos em condições de nos salvar a nós próprios, sobre isso não restam dúvidas. Falamos em democracia, mas ela é apenas a expressão política para um estado de espírito caracterizado pelo "Pode ser assim, mas também de outro modo". Vivemos na época do boletim de voto. Até votamos todos os anos no nosso ideal sexual, a rainha da beleza, e o fato de termos transformado a ciência no nosso ideal intelectual não significa mais do que por na mão dos chamados fatos um boletim de voto, para que eles escolham por nós. Este tempo é antifilosófico e covarde: não tem coragem para decidir o que tem ou não tem valor, e a democracia, reduzida à sua expressão mais simples, significa: fazer aquilo que acontece! Diga-se de passagem que é um dos mais desonestos círculos viciosos que alguma vez existiu na história da nossa raça. 
Robert Musil, in 'O Homem sem Qualidades'

Terça-feira, 30 de Abril de 2013

A CRISE: QUEM SABE "RECONHECE" A HORA



Quem é nascido antes dos Anos 50 do século passado, sabe muito bem o que é “viver em crise”, pois na verdade a República dos Estados Unidos do Brasil, desde o seu nascimento em 1889, viveu mais tempo sob “estado de sítio” do que sob “instituições democraticamente constituídas”. Talvez porque, como sempre, as “mudanças” ocorridas no País sempre foram determinadas pela vontade das “oligarquias políticas” e não por uma “manifestação da vontade popular” e isto a rigor considera a própria instauração da República, quando um Imperador amado e respeitado por seu povo, foi apeado do Poder por um “marechal de pijama”, porta voz de uma “maioria republicana” inexistente. A leitura dos episódios precedentes a esse acontecimento diz bem do “sentimento nacional” de então. 

À República Velha (1889-1930), que após mínimos 41 anos de existência, já expunha os vícios do peso do poderio econômico como fator hegemônico regionalista, (a República do Café com Leite), sobreveio a República Nova, nascida de um Golpe Militar da Revolução de 1930, que levou ao poder Getúlio Vargas, o primeiro Pai dos Pobres do Brasil e que em 1937 ditatorialmente manteve-se no Poder através do Golpe do Estado Novo, talvez um dos períodos mais negros da nossa história em termos de repressão, violência e falta de garantias de liberdade política e de expressão. Em 1945 um “golpe branco” apeou do poder Getúlio Vargas, fruto das “exigências democráticas” dos militares brasileiros recém-saídos da Campanha da Itália, enamorados da pujança da nação norte-americana reerguida em menos de 10 anos após o “crack da Bolsa” e também do poderio alemão retomado em menos de 15 anos após a assinatura do Tratado de Versalhes.

Contudo, quero falar principalmente do “tempo das minhas recordações” até nossos dias e que se principia no Governo Vargas (1951-1956), que reabriu a “caixa de Pandora” e as feridas antigas e mal curadas de seus períodos de governo anteriores e que o levou ao suicídio em 1954 e que mesmo assim manteve-se turbulento institucionalmente até seu final melancólico sob o Governo Café Filho/ Carlos Luz. O Governo Juscelino, (1956-1961) nasceu e manteve-se todo ele sob a permanente ameaça de golpes militares mal sucedidos, ameaças de carestia, movimentos grevistas e “empastelamento” de jornais. A renúncia de Jânio Quadros em 1961, após 9 meses de Governo e a difícil condução de João Goulart à Presidência após a tentativa de um “golpe parlamentarista”, (Tancredo Neves, figura obrigatória em todos os Governos desde 1945) e que ao final culminaram com a Revolução de 1964. Não se aponta ao longo desses 75 anos de “regime republicano” um só ano de absoluta liberdade, estabilidade institucional, paz e desenvolvimento social. Essa, em resumo, é toda a nossa “experiência democrática” pré-revolucionária.

Decorridos hoje outros quase 50 anos de “regime republicano presidencialista” e excetuados os 21 anos de Ditadura Militar, não tivemos “golpes”, mas tampouco avanços realmente solidificados em termos de “instituições livres e democráticas”, se por instituições absolutamente livres e democráticas entendermos as que funcionem “independentemente” do Poder Central e que sejam estritamente regidas pela “força da lei”, garantindo a paz e a ordem social, principalmente no tratamento da “igualdade perante a lei constitucional”. Quantos nomes neste tempo de “elevado espírito público” sobressaíram-se nos Três Poderes por terem sido pilares da construção da Democracia e das Liberdades Individuais e que tenham liderado e promovido as “profundas mudanças” políticas, econômicas e sociais demandadas pelo Povo Brasileiro?

No Brasil temos sempre confundido “elevado espírito público” com “popularidade” e a consequência disso é que todos os Executivos e Legislativos Brasileiros das últimas décadas “aguardam julgamento” para fazer jus à perfilar na HISTÓRIA e assim chegamos ao ponto em que o Judiciário é o “poder defensor e última instância” das nossas esperanças. Contudo, o próprio Poder Judiciário, desde suas mais baixas instâncias, é incompetente para garantir a “Justiça Social Igualitária”, principalmente aos “mais despossuídos” e à “baixa classe média”. A rigor, tem sido a conscientização política popular crescente, mas ainda pouco atuante, que tem imposto freios aos desvarios totalitários, que por vezes ainda aflora na “elite política”, que nada aprendeu nestes últimos 125 anos e que hoje substituiu o “Governo do Café com Leite” pelo “Governo da Fome Moderada” mediante a inclusão social através de “Bolsa da Miséria Familiar”. Um País que em 20 anos tem como sua grande conquista um Programa de Inclusão, que se tornou uma “Política de Estado”, não saiu do lugar, pois veio simplesmente a “corrigir” injustiças do passado.

Estamos novamente às vésperas de Eleições Presidenciais e vivemos novamente o debate entre os arautos do apocalipse da perda da conquista da “pouca fome garantida” contra os demônios promotores das “mudanças essenciais” constitucionais, judiciais, políticas, tributárias e sociais, (aqui incluída a força de trabalho), que entre os nomes em oposição que se apresentam, não se identificam. Todos se propõem a “fazer mais do mesmo” e quem souber interpretar o que o povo deseja em um exato momento e souber traduzi-lo inteligivelmente aos seus ouvidos sempre será o eleito, ainda que contra todas as “probabilidades” dos “donos políticos” do Brasil.

Assim finalizo, reiniciando. Quem é nascido no Brasil, sabe muito bem o que é “viver em crise”, pois na verdade a República Federativa do Brasil, desde o seu nascimento em 1889, viveu mais tempo sob “crises de identidade” do que sob “instituições democrática e estritamente constituídas”. Isso porque, como sempre, as “mudanças” ocorridas no País sempre foram determinadas pelas conveniências das “oligarquias políticas vigentes” e não pela “manifestação consciente da vontade popular”. O Brasil continua o mesmo, porque seu Povo, assim o deseja ou o permite.

Antônio Figueiredo, o @ToniFigo1945, é economista e agora, o tradutor da conjuntura econômica da América Latina - e do mundo - para o blog.

Nota do blog: os artigos do Toni Figo sempre são publicados às segundas-feiras. 
Por responsabilidade exclusiva da dona do blog, não foi possível postá-lo ontem, 29. 

Domingo, 28 de Abril de 2013

É DOMINGO: O BEM AOS BONS E O CASTIGO AOS MAUS


A paz! Não a vejo. Não há, como não pode existir, senão uma, é a que assenta na lei, na punição dos crimes, na responsabilidade dos culpados, na guarda rigorosa das instituições livres. Outra espécie de paz, não é senão a paz da servidão, a paz indigna e aviltante dos países oprimidos, a paz abjeta que a nossa índole, o nosso regímen essencialmente repelem, a paz que humilha todos os homens honestos, a paz que nenhuma criatura humana pode tolerar sem abaixar a cabeça envergonhada. 
Esta não é a paz que eu quero. Quando peço a observância da lei, é justamente porque a lei é o abrigo da tolerância e da bondade. Não há outra bondade real, senão aquela que consiste na distribuição da justiça, isto é, no bem distribuído aos bons e o castigo dispensado aos maus. 
[Rui Barbosa, in Antologia]